
Não há mais tento no que tento, do que o tento sem causa desse tento. Padeço. O amor é mesmo uma coisa desfalecida. A frustração, uma lâmina que divide a consciência em duas partes, a insensata e a esquecida. Afinal, o mundo é sempre igual. Não há mais dizer no que digo, do que o que digo sem causa desse dizer. Perco-me. A vida é perpetuamente sólida. Os seus intervalos, líquidos que se condensam e que retornam apenas quando querem. Afinal o arbítrio é sede do incógnito.
As pessoas são todas iguais. São como pontos finais que encerram frases de um livro interminável. De um livro sem histórias dentro da História. De um livro sem capa ou folhas, de um livro apenas. Aquele que se escreve num encéfalo que o destrói progressivamente, à medida que o tempo passa. Um livro sem tempo, ou tento, ou dizer. Um dos que se perdem após um primeiro copo, copo que nunca é só o primeiro. Um dos muitos livros que fingimos existirem.
Às vezes apetece-me estar calado. O silêncio pode ser, em inúmeras ocasiões, o sofrimento dos pobres. Às vezes apetece-me estar calado em mim mesmo. Deixar que a ignorância me tome, só para sentir que sou alguém interessante. Só para me esquecer dos pontos finais, das histórias minúsculas ou maiúsculas, dos livros que não existem. Para me esquecer que a razão é um castigo, que o silêncio é um cretino e, a frustração, uma realidade que não posso deturpar…