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sexta-feira, 6 de agosto de 2010


É estranho estar cá dentro. Neste lugar, que sou eu, aprisionado sistematicamente a uma dimensão algures situada entre a evasão e a realidade. E ser, por consequência dessa incapacidade de resposta, um vulto paralisado. Uma matéria organicamente desenvolvida para não ser nada.

A paz pode ter os seus limites. Já pensaram nisso?... Ser pacífico numa realidade que não o é pode fazer de nós animais raros mas, e ao mesmo tempo, torna-nos indivíduos incapazes de tomar uma posição. Criaturas dotadas de uma sensibilidade estúpida. Munidas de um grau de intelectualidade elevado, mas inútil.

Se aqueles que não são como nós [quando digo aqueles refiro-me à maioria que cede aos caprichos mundanos de fazer tudo o que bem lhe apetece sem que tal intento reproduza acidentes drásticos nos carris da sua consciência], por nos serem dissemelhantes, nos são capazes de reconhecer a distinção e até de aplaudi-la, jamais serão capazes [porque não vêem nela, quiçá, progresso social algum] de transfigurá-la para as suas próprias vidas, de que nos serve então sermos diferentes [pacíficos], ou melhor, reconhecidamente diferentes [pacíficos]?...

Pois bem, é dessa incompreensão que tenho padecido nestes últimos dias. Mentiria se não vos dissesse que tentei resolver facilmente a coisa. Ainda ontem, por exemplo, arquitectei a hipótese de me deslocar à farmácia mais próxima, na ânsia de encontrar um daqueles medicamentos milagrosos que curam tudo. Todavia, o alto índice de culpabilidade que a sociedade me foi cravando silenciosamente na consciência ao longo dos anos [uma arte de nos tornar máquinas capazes de racionalizar todas as possibilidades] acabou por me paralisar uma vez mais, condenando-me a um estranho e profundo medo de reacção. Por outras palavras, tive receio de arriscar. Podia dar efectivamente certo, como podia não dar. E era um 50/50 mentiroso, já que escondia ainda outras possibilidades na cartola. Se resultasse, e eu conseguisse de facto encontrar resposta para a minha dúvida poderia ficar esclarecido mas existiria sempre a possibilidade de desenvolver algum tipo de efeito secundário. Daí talvez o medo. Esta coisa às vezes tão confusa de entender, mas que foi crucial para que eu não tivesse arriscado a ingerir o dito composto químico. Por outro lado, que existem sempre outros lados [é a tal máquina de guerra que vos falei à pouco a funcionar novamente], se não resultasse, para além de manter a dúvida na mesma perspectiva, ou seja, em algo essencialmente impossível de explicar, de corroer ainda mais a minha carteira com novo desfalque financeiro e de continuar a por em causa a integridade do meu organismo global [digo global porque ele é corpo e mente] com possíveis aparecimentos de efeitos secundários, ficaria duplamente frustrado. Primeiro porque não teria conseguido resolver a dúvida que me salteava a mente; Segundo, porque teria de me reconhecer enquanto um ser completamente bucólico, perfeitamente tolo, vá, capaz de acreditar no mais pequeno disparate que lhe aparece diante dos sentidos, se tal implicar a cura para qualquer coisa que o perturbe incessantemente no imediato e curto espaço que é a sua vida…

É verdade caros e fiéis amigos. Ser pacífico poder ser um acto mais estranho do que parece. A paz pode ser mais estranha do que parece. Sobretudo porque não vivemos num mundo construído à sua imagem mas num outro, recheado de bolas de Berlim fora de prazo. É aí que ser pacífico se pode tornar também e, de certa forma, um tanto ao quanto doloroso. Objectivamente em momentos onde um ser pacífico se veja obrigado a consumir alguns desses bolos para poder manter o seu organismo funcional, que é como quem diz, para poder sentir-se parte incluída de um sistema maioritariamente assumido. É claro que incorre sempre no risco de padecer de diarreia, pois os bolos fora de prazo podem albergar potentíssimas bactérias, invisíveis aos olhos humanos, mas que na sua consistência, se apresentam às tripas como verdadeiros demónios.

E o que fazer em momentos como esses, deverão estar vocês a questionar? Por vezes a única solução é mesmo retornar às nossas origens, descortinando o bicho primitivo que existe em cada um de nós, e deixar que toda a matéria inquinada flua pelas bordas dos nossos cús a fora, como um rio que luta heroicamente para correr entre os leitos mais íngremes do planeta. Sim caros amigos, é reflectir para se chegar ao consenso de que se errou, e voltar humildemente a ser-se quem se era.


1 comentários:

Poetic GIRL disse...

Magnifico post, às vezes o retorno ao que éramos, ao que tínhamos pode ser positivo. Depende do tamanho da ferida que temos dentro do peito. bjs