
Vou dormir. Talvez seja melhor que carimbar palavras que entristecem à medida em que lhes acrescento mais uma letra.
Vou dormir. Talvez seja a coisa mais poética neste momento.
Vou dormir. Talvez amanhã, quem sabe, acorde mais lúcido.
Vou dormir e, nesse enquanto, pintar os sonhos com esperança. Mesmo que amanhã não me lembre dos sonhos ou a esperança seja derrotada antes do final de outro dia.
Vou dormir. Porque hoje, essa é a minha única certeza…
segunda-feira, 21 de setembro de 2009
Vou dormir.
Publicada por Pedro Rodrigues à(s) 21.9.09 2 comentários
domingo, 13 de setembro de 2009
Uma onda sem retorno.
«Céus…», pensei. De todas as perguntas possíveis ela escolhera talvez a mais complicada. O que é o amor… Fiz uma regressão naquele momento, memórias enchiam-me por dentro enquanto que, surpreso por fora, o meu corpo não conseguia reagir tão imediatamente quanto fora a convicção daquela pergunta.
«O que é o amor…» Eu queria ser sincero, mas para a genuinidade da minha resposta ganhar forma teria de me conseguir desprender da profunda tristeza que nascera comigo e me acompanhara ao longo de toda a vida, acentuando-se em etapas onde realmente fazia todo o sentido que essa agonia se estendesse através da minha figura.
«O que é o amor…» Quando amámos demasiadas pessoas torna-se um sentimento perturbador, um conceito vulgarizado pela nossa necessidade de atenuar a dor que as separações nos causam.
«O que é o amor…»
Há muito que não falava disso com alguém e, estar diante daqueles jovens, puros e ternos olhos azuis, falando de um sentimento que para mim sempre fora tão fúnebre, era como estar envolto numa estranha nudez, trauteando mágoas a alguém que por não ser eu, me fazia sentir esquisito. Mas enchi-me de coragem, olhei os seus olhos de oceano interminável e respondi.
«Talvez sejam três, as formas de amor… Uma primeira, quando desconhecemos a pessoa e apenas cedemos à química que se abate sobre dois seres humanos que decidiram comunicar. Uma segunda, que é quando ainda sentimos momentos semelhantes ao dessa primeira vez mas ficamos menos tolerantes perante os instantes em que as dúvidas, a rotina ou os conflitos entorpecem essa química e, uma última, talvez a mais sentida das formas de amar, que é quando compreendemos finalmente que deveríamos ter abraçado sempre essa química e não deixá-la escapar aos poucos, até ficarmos sós e a pensar nas coisas boas que vivemos ao lado da pessoa que amámos.»
Por momentos, pensei que os seus olhos eram mesmo o oceano. Por momentos nada mais se ouviu senão o barulho do seu leve coração, estilhaçava-se dentro do seu peito. Por momentos, eu soube que alguém me amava.
Pouco depois, ela afastou-se. Nada disse. Apenas se foi embora, como uma onda que nos cumprimenta brevemente e regressa sem retorno ao infinito de onde pertence…
Publicada por Pedro Rodrigues à(s) 13.9.09 3 comentários
segunda-feira, 7 de setembro de 2009
O último encontro.
Estavas sentada numa cadeira, olhando-me nos olhos e te distanciando deles. Num estar de corpo presente, num estar de querer somente confirmar quem de nós dois era o mais confiante. Talvez fosses tu. Talvez sejas sempre. Sempre pequei por pensar em demasia…
«Ouvi dizer que os escritores passam por um período difícil quando sofrem por amor», disseste, em tons do que me pareceu ser orgulho.
«Não sei… Mentiria se não te dissesse que tive um pequeno bloqueio após nos separarmos, mas foi efémero e saudável pois catapultou-me para outra realidade, ajudando-me a construir coisas novas e diferentes.» Respondi, completamente ciente de que nada daquilo era verdade, uma verdade que só era tangível na profundidade de mim mesmo, onde a mente perde o controlo dos sentidos e a apatia nos engole a alma.
Sim, os escritores ficam paralisados quando sofrem por amor. E ficam amedrontados pelo futuro enquanto aguardam sem vontade por ele, escondidos num lugar onde o mundo se esvai em cinzas antes do fogo ter mostrado a sua ira. Sim, os escritores revivem o passado, dentro de si próprios, de hora a hora, cronometrados por um relógio cruel chamado de saudade. Sim, eles sofrem e choram o seu sofrimento. Eles camuflam-se na escuridão da noite, fiéis à convicção de que desse modo, a sua tristeza não será vista.
Eles passam por aquilo a que tu chamaste de "período difícil" e que eu, como escritor do meu próprio destino, não tive a bravura necessária para o admitir…
Publicada por Pedro Rodrigues à(s) 7.9.09 7 comentários
terça-feira, 1 de setembro de 2009
São pêndulos
De cristal quebrando
Em noites paradas
E sombrias.
A lua
Pressiona-me os ombros.
As árvores
Mandam-me embora,
Num cessar de folhas
Velhas e feias.
O chão
Gela-me o corpo
Com a ajuda do vento.
Conto os dias,
São palavras sem letras,
Sangue sem feridas,
Frases sem ti.
E no céu
(Porque não há para
Onde mais olhar
Em noites onde contabilizamos dias),
Descubro as nuvens.
E antes que a lua desabe sobre mim,
Que as árvores fiquem nuas ou,
Que o clima me devore
Os restos,
Liberto-as transparentes dos meus olhos.
Conto os dias,
Talvez um dia os deixe de contar…
Quem sabe, num dia
Em que a lua me convide a voar
Para um sitio onde raízes
Se transformem
Em árvores imortais,
Auxiliadas pelo brilho do
Sol e a força do vento
E, onde o tempo, me aqueça
Esta permanente criança
Que é o coração…
Publicada por Pedro Rodrigues à(s) 1.9.09 2 comentários
quinta-feira, 6 de agosto de 2009
É o demónio.
Quem nos provoca
E nos insiste em colocar
Num frente a frente
Que é cegueira e ódio
E jogo de saliva
Desmedida e invisível.
Negas-me o toque
Com um desvio
Inevitável como
A incapacidade
De me apagares
Mentalmente.
A mentira, é tua.
A sua sombra,
Uma garantia
Para mim,
De que ainda
Não partiste.
De que ainda não
Te esqueceste da
Espiral controvérsia
Ateada em noites
De um silêncio
Interrompido pelo
Barulho dos nossos
Corpos cruzando
Dor com prazer.
É o demónio
Quem me provoca
E nos insiste em colocar
Num pesadelo que é sonho
De engano e verdade
De uma ilusão levada
Pelo vento de um caos
Chamado de pensamento.
Sim,
É ele
Quem escreve
Esta união deturpada
Nas nossas cabeças
E se diverte
Obrigando-nos
A descodificá-la.
É ele quem nos mutila
Nas horas mortas,
Enchendo-nos de
Lembranças imorais.
E que nos tenta,
Ao cair de cada noite
Solitária, com
A sua tirana
Vontade de nos
Voltar a ver
Insanos,
Ordinários
E descontroladamente
Inteiros…
Publicada por Pedro Rodrigues à(s) 6.8.09 3 comentários
quarta-feira, 29 de julho de 2009
Não me consigo exprimir
O meu coração é um jardim
Onde rosas choram lágrimas
De vidro que ferem espinhos.
A minha mente, uma cratera
Onde o vento impera
Cantando na solidão
De uma destruição concretizada.
E todo o meu corpo
É como prata fundida,
Reflectindo o céu.
Sento-me,
Inclino-me
E deixo que a
Minha sombra
Se espalhe pelo chão
De um campo de
Cravos negros.
Clamo.
Não sei porquê,
Não sei de quê.
Talvez apenas
Porque o que me consome
Por dentro queira sair.
Porque o que me fere,
Deseje acabar de arder
Em território neutro.
Porque o meu coração foi um jardim
Onde rosas se protegiam
Das lágrimas, com espinhos.
A minha mente,
Um bloco de conhecimento
Estruturado por camadas
Maciças de certeza.
E todo o meu corpo
Foi como ouro sólido,
Reflectindo com vaidade
O seu brilho.
Não me consigo exprimir.
A fogueira adormece.
Os cravos confundem-se
Na escuridão da noite.
A sombra abandona-me
E o grito desaparece
Ao longe, com o vulto
Que sou…
Publicada por Pedro Rodrigues à(s) 29.7.09 5 comentários
sábado, 11 de julho de 2009
É noite.

É noite,
É tarde.
As luzes da rua
Iluminam-me,
Trazem a certeza
Das horas nos olhos
E o esplendor da solidão
Nas pernas.
É noite
E está tarde,
Talvez também para ela
Que oscila entre
A luz dos candeeiros
Inglórios da cidade
E a escuridão das
Suas ruas despistadas.
Se tivesse um caderno
Possuía-a por trás
Ali mesmo.
Mas o caderno não veio,
A poesia não verte e,
Só porque é noite
E está tarde,
A razão sem verdade
Deste encontro
Rumará efémera
Comigo até casa,
Onde estendida
Sobre os lençóis da cama,
Sairá derrotada
Quando, no clímax
Da sua covardia,
Remoer na sombra
Do que poderia ter sido
Uma noite interessante…
Publicada por Pedro Rodrigues à(s) 11.7.09 1 comentários




