
Sexta-feira, dia 18 de Junho de 2010. Mais do que um magno escritor morre um dos mais lúcidos filósofos portugueses de sempre.
Há coisas que não se devem escrever por poderem correr o risco de ficarem incompletas, por isso, não falarei do Homem que foi Saramago. Por isso, não falarei do exemplo que ele foi para os abençoados que quiseram entender o significado real das palavras que lhe nasceram da mente. Por isso, e, da minha grata ignorância, só posso aqui deixar uma mensagem: - Que descanse em paz no Universo infinito do nada...
domingo, 20 de junho de 2010
Descansa em paz amigo.
Publicada por Pedro Rodrigues à(s) 20.6.10 1 comentários
segunda-feira, 26 de abril de 2010
Arde um beijo.
Arde um beijo. Os labirintos das nossas línguas são o fogo. E as bocas, o único oxigénio que controla o que resta de consciente nesse gesto. E Arde… Arde… Arde.
[Existem incêndios que jamais haveriam de se extinguir…] Os nossos corpos respondem, e, por entre os resquícios de mais um dia penosamente igual aos outros, o perigo interrompido desse acto socialmente proibido, desnuda-nos as almas e torna-nos mais humanos.
Publicada por Pedro Rodrigues à(s) 26.4.10 1 comentários
domingo, 4 de abril de 2010
Reflexo.
Não consigo evitar. É mais forte que todos os meus sentidos lutando com bravura contra a maré da realidade. Fazes-me cócegas no coração. Daquelas que me perturbam veemente a coordenação motora, fazendo-me assemelhar à palavra mais próxima que existe do sinónimo totó, e que eu não me lembro agora qual seja. Sim, porque eu só penso
Não consigo evitar. É como que um eco eterno de ruídos entrando por mim a dentro, embutindo sedutoras perguntas na minha consciência, sobre quem és, sobre todo aquele mistério que usas para te esconderes de ti própria. Para te esconderes de mim também. Gosto disso. Sei que também gostas, e desse jogo vive aquilo que ambos teimamos em negar.
Eu e tu. Os dois. Somos o reflexo putrefacto que perturba os eixos da sociedade. Não respondas, poupa-te
Publicada por Pedro Rodrigues à(s) 4.4.10 2 comentários
domingo, 21 de março de 2010
Carrossel.

Num dia onde abelhas
Namoriscavam por
Cima do néctar
De malmequeres
E borboletas sacudiam
O vento com as asas,
Andorinhas fingiam
Que comiam
Para não verem
Suas pequenas
Carcaças roubadas.
Os pardais olhavam,
Num dia onde o sol
Reflectia nas teias
De aranha
Um sinal de emboscada.
E grilos anunciavam com
Música, o presságio
De uma morte esperada.
Os gatos olhavam serenos
em cima de um muro.
Os cães permaneciam agitados
Por baixo.
Nas ervas, o som do arrasto
De uma serpente.
O rato comia
Cereais desprevenido.
Não a ouviu,
Não a cheirou
E, quase certamente
Que não a sentiu.
Tssssss...
Com o abalo
As andorinhas fugiram,
Levando consigo um bando
De pardais enganados.
Enquanto abelhas
Se divorciavam das flores
E, Milhares de borboletas
Rumavam assustadas
Sem saberem,
Para um outro vazio.
E o sol
Continuou a queimar teias,
Intensificando a sua presença
Com o emudecimento dos grilos.
Os cães sumiam ao longe,
Os gatos volviam aos
Seus destinos solitários.
E tudo voltou ao normal
Quando a volta do
Carrossel foi cumprida…
Publicada por Pedro Rodrigues à(s) 21.3.10 1 comentários
domingo, 21 de fevereiro de 2010
Acordo Ortográfico
Sinceramente, fico transtornado por transformarmos as poucas coisas boas que temos no nosso país.
Fico triste por sermos um povo que continuadamente prefere enxergar-se aos poucos nos estilhaços, permanecendo para sempre dividido, e por isso desconhecido em torno de si mesmo, em vez de, e com coragem, optar pelo lúcido e bravo acto de formar um ego que o torne suficientemente capaz de se achar merecedor de se ver com totalidade, no reflexo produzido por um espelho inteiro.
Publicada por Pedro Rodrigues à(s) 21.2.10 5 comentários
sábado, 13 de fevereiro de 2010
Relógio
«Talvez devesse dizer ao patrão que os atrasos são culpa do meu jeito minimalista.» Penso, antes de chegar à conclusão de que me atrasei mais um pouco. «Há mulheres que dizem que os homens não conseguem fazer muitas coisas ao mesmo tempo.» Seria sensato ter concordado com essa ideia naquele momento.
Se pudesse mandava esta vida para um sítio tropical e ficaria, sem repulsa alguma, num mais frio e ventoso. A rotina enraivece as raízes do cabelo. Ziguezagueio mais um pouco.
Uma hora não é muito tempo. Digam isso ao meu patrão, quando me atraso, como hoje… Uma hora pode fazer com que duas pessoas se odeiem mutuamente. Que se odeiem para a eternidade!
Bom, e lá fico eu, como sempre. Entre mais um dia onde, em vez de ziguezaguear formalmente chateado durante o resto que lhe sobra, me acomodo a prevalecer falaciosamente contente.
«Talvez devesse fazê-lo mais vezes, quem sabe se dessa forma não teria mais amigos».
Bum! Bum! Bum! Ouço, repetidamente, o som que me nasce da essência. Se possuísse o relógio que nunca tive, talvez tivesse coragem de sair à hora certa. «O minimalismo pode ser sombrio.», sussurro, seguro de que ninguém me ouve.
Talvez acorde amanhã mais cedo, passe numa loja, compre um relógio de pulso seguramente funcional e corajosamente, saia mais cedo…
Publicada por Pedro Rodrigues à(s) 13.2.10 3 comentários
domingo, 3 de janeiro de 2010
Às vezes, pensar que não gosto de pensar no mundo, revela-se algo extraordinariamente sensual perante a minha percepção. É, sobretudo, em momentos como esses que tenho a certeza que não sou bom nem mau tipo. Que não sou uma mente genialmente configurada de um jeito alternativo, ou, parte numérica de uma quantificação de massas estupidificada, uma um pouco mais extensa do que aquelas que se podem encontrar vulgarmente sentadas, de jeito confortável, diante de uma tela gigantesca e que, como forma de atenuarem os seus espasmos nervosos, provocados na sua essência, por montagens electrizantes de efeitos visuais psicadélicos e sons não menos irritantes, se munem, todas contentes e atomizadas, que é como quem diz, de modo néscio e singular, sempre da mesma forma; Numa das mãos carregando um produto gaseificado de uma multi-nacional qualquer, enquanto que, com a outra, aproveitam para cumprir um dos poucos rituais sagrados ainda existentes na sociedade ocidental do séc. XXI, roer activamente um chocolate devidamente rotulado como saboroso, e que foi, momentos antes da sua manufacturação, previamente celebrizado num comercial qualquer enquanto produto divinalmente desenvolvido para causar prazer nas mais diversas, merecedoras e, não tão arbitrárias papilas gustativas, quanto isso.
Pensar pode moer. Pensar pode consumir-nos a alma. Pensar mói no estômago do tempo os restos mais abafados do silêncio.
Um dia destes, quem sabe, talvez ainda vá ao cinema. Talvez, também eu por lá coma um chocolate embalado por uma máquina qualquer, ou acabe por ser engolido por um pacote "king size" de pipocas enquanto olho para uma tela que, ainda sem tanto sabor como o chocolate ou tanto volume como as gigantescas pipocas, me faça abstrair do triste, pesado e ingrato fantasma que é pensar.
Ou talvez não faça nada. Talvez fique apenas imóvel. Paralisado na morgue que é o espaço entre a psique e o organismo. Contaminado pela praga de ser um “Zé-ninguém” em mim mesmo, e ser covarde demais para o contestar…
Publicada por Pedro Rodrigues à(s) 3.1.10 3 comentários



